A revolta que pôs fim à chibata
O Brasil Cultural desta semana vai a 1910 para falar sobre o levante que agitou as águas da Guanabara, no Rio de Janeiro. A famosa Revolta da Chibata contou com a participação de mais de 2 mil marinheiros, extinguiu os castigos físicos na Marinha e conferiu a João Cândido o título simbólico de “Almirante Negro”.
29/08/2025
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Em 1975, de uma parceria entre Aldir Blanc e João Bosco, nasceu a música “O Mestre-Sala dos Mares”. Era uma homenagem ao marinheiro que comandou, em 1910, a Revolta da Chibata. Indignados com a aplicação de castigos físicos, os marujos tomaram quatro navios de guerra e apontaram 80 canhões para a cidade do Rio de Janeiro. Os fatos que se sucederam aos acontecimentos são dramáticos. Envolvem perseguições e mortes. O levante dos trabalhadores, porém, obteve uma vitória emblemática: a chibata foi abolida da Marinha. As “rubras cascatas” deixaram de jorrar das costas de homens mal remunerados – que, em sua esmagadora maioria, eram pretos e pardos.

É inevitável vincular uma coisa à outra: 22 anos após a assinatura da Lei Áurea, o Brasil – por meio de uma de suas forças armadas – continuava vivendo os tempos dos feitores e capitães do mato. Os oficiais, no entanto, não poderiam imaginar que, nas águas da Guanabara, surgiria um “bravo feiticeiro” a manobrar, com imensa habilidade, o encouraçado Minas Gerais. Ao capitanear um “dragão do mar”, João Cândido passou para a história. Os livros didáticos o conhecem. Nas salas de aula, os professores falam dele.

Antes de se alastrar definitivamente, a fama passou por empecilhos. A censura não aceitou ipsis litteris a letra da canção. Que negócio era aquele de chamar um insubordinado de “almirante negro”? Os artistas fizeram o ajuste. Escolheram outra palavra, também com quatro sílabas. “Navegante” foi aceita. Elis Regina, então, tratou de gravar a composição – que, mesmo não citando literalmente o nome de João Cândido, eternizou-o no imaginário popular.

No tempo da escravidão, os açoites e as desumanidades mil geraram os quilombos. A monarquia e os grandes latifundiários se encheram de furor e trucidaram um a um, inclusive o mais famoso dentre todos – o de Palmares. As vozes e braços de mando, no Brasil, apresentam uma peculiaridade ao longo da história: agem como Neros e esperam, do outro lado, a reação pacífica dos santos. Se as revoltas produzem calamidades, põem a culpa nos insurretos. Esquecem-se de algo básico: os que tinham poder de decisão abusaram, por anos a fio, da humanidade alheia. Sem calo na consciência.

Sendo assim, o Brasil Cultural apresenta A revolta que pôs fim à chibata. No final do programa, há uma proposta de apelo histórico. Vale a pena conferir.

 

Ricardo Walter